Páginas

Vips´

27 de mar de 2015

Copiloto de avião passou 6 meses em tratamento psiquiátrico, diz jornal

Segundo jornal 'Bild', tratamento ocorreu antes de completar formação.
Revista diz que material apreendido em casa respalda tese de transtornos.

Da G1, em São Paulo 
Andreas Lubitz, copiloto do avião da Germanwings apontado como responsável pela derrubada do avião, em foto de setembro de 2009, enquanto corria a meia maratona de Hamburgo (Foto: Foto-Team-Mueller/Reuters)Andreas Lubitz, copiloto do avião da Germanwings apontado como responsável pela derrubada do avião, em foto de setembro de 2009, enquanto corria a meia maratona de Hamburgo (Foto: Foto-Team-Mueller/Reuters)
O copiloto da Germanwings suspeito de ter derrubado de forma proposital um Airbus A320 nos Alpes franceses esteve seis meses sob tratamento psiquiátrico antes de completar sua formação, afirmou nesta sexta-feira (27) o jornal alemão "Bild". O acidente, que ocorreu na última terça-feira (24), deixou 150 mortos.
De acordo com o jornal, que cita como fontes "círculos da Lufthansa", as razões pelas quais Andreas Lubitz, de 28 anos, interrompeu sua formação em 2009 se deveram a uma grave depressão diagnosticada nesta época.
A edição digital da revista "Der Spiegel" afirma, além disso, que nas operações realizadas ontem durante horas nas duas casas do copiloto - a de seus pais e a própria, em Düsseldorf - foram apreendidos materiais que respaldam a tese dos transtornos psíquicos.
A revista não apresenta, no entanto, mais detalhes sobre os materiais apreendidos.
A polícia alemã apenas informou que recolheu pistas em uma das residências do copiloto.
"Durante a inspeção do apartamento do copiloto, recolhemos pistas. São vários objetos e documentos", afirmou o porta-voz da polícia de Dusseldorf, Marcel Fiebig.
Os policiais apreenderam um computador e duas grandes malas, além de uma caixa, visivelmente cheias, após as inspeções nas duas casas do copiloto, em Dusseldorf e em Montabaur, no estado de Renania-Palatinado (oeste da Alemanha).
Treinamento interrompido
O "grave episódio depressivo" a que se refere o "Bild" ficou constatado, segundo o jornal, na ata sobre o copiloto do departamento de tráfego aéreo alemão sob o código "SIC", que se refere à necessidade de que sujeito em questão se submeta a "revisões médicas regulares".
O mesmo jornal revelou que o piloto tentou abrir a porta da cabine com um machado ao ficar trancado do lado de fora, antes da queda.
O fato de que o copiloto que causou a catástrofe aérea tenha interrompido durante um período relativamente longo sua formação na escola aérea da Lufthansa foi reconhecido pelo presidente da companhia, Carsten Spohr.
O próprio Spohr evitou, no entanto, especificar a que se deveu esta interrupção, alegando que está sob a prerrogativa da confidencialidade médica.
Lubitz começou sua aprendizagem aos 14 anos em um clube de aviação local e ingressou na escola de Brêmen da Lufthansa em 2007.
Em 2009 interrompeu por alguns meses essa formação, que retomou posteriormente até ingressar na Germanwings, filial de baixo custo da Lufthansa, em 2013.
Spohr reforçou ontem que, tanto ao ingressar na escola como ao retomar e completar sua instrução, Lubitz passou pelos mais rigorosos exames, tanto físicos como mentais.
Mapa queda de avião França V3 (Foto: G1)

tópicos:

26 de mar de 2015

Brasileira conta em livro como viajou três meses pela Europa sem dinheiro

Flávia Mantovani Do G1, em São Paulo 
Aline Campbell em Paris (Foto: Aline Campbell/Arquivo pessoal)Aline Campbell em Paris (Foto: Aline Campbell/Arquivo pessoal)
A brasileira Aline Campbell, que viajou três meses pela Europa sem gastar nem um centavo, reuniu suas aventuras de viagem em um livro.
Natural do Rio de Janeiro, Aline, de 26 anos, embarcou em 2013 em um avião sem levar nada de dinheiro – nem um cartão de crédito para emergências. Fora o gasto prévio com as passagens aéreas de ida e volta, ela não desembolsou nada com transporte, hospedagem ou comida.
Aline com o livro na mão, no dia do lançamento (Foto: Diego Padilha/I Hate Flash/Divulgação)Aline com o livro na mão, no dia do lançamento (Foto: Diego Padilha/I Hate Flash/Divulgação)
Dependendo apenas da ajuda de desconhecidos para dormir, comer e se locomover, a artista plástica carioca conheceu 30 cidades em 14 países durante 92 dias. A ideia, explicou, era mostrar que é possível confiar na bondade das pessoas.
O livro é uma adaptação de seu diário de viagem, que foi escrito ao longo do caminho. Com o título de “Portas Abertas: Três meses na Europa sem um centavo no bolso”, a publicação independente teve metade dos custos financiados por uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) na internet.
É possível baixar gratuitamente a versão online ou comprar o livro impresso diretamente com a autora por R$ 35, já incluído o frete.
Vida leve
Aline Campbell durante sua viagem pela Europa; pegando carona (fotos dos extremos), em Londres (acima) e com um senhor que conheceu na Sérvia (abaixo) (Foto: Aline Cambell/Arquivo pessoal)Aline Campbell durante sua viagem pela Europa; pegando carona (fotos dos extremos), em Londres (acima) e com um senhor que conheceu na Sérvia (abaixo) (Foto: Aline Cambell/Arquivo pessoal)
Aline diz que quer que o livro inspire outras pessoas a irem atrás de seus desejos e mostrar que “o mundo não é tão ruim ou perigoso com pensamos”. "Quero levar adiante a ideia de que positividade atrai positividade, de que quando respeitamos as diferenças, confiando em um mundo melhor, conseguimos levar uma vida mais leve, sincera e feliz”, afirma.
Ao revisar seu diário para o livro, a carioca pôde reviver as situações que viveu na viagem. Uma das mais marcantes foi sua ida de Londres até a Sérvia, um país que ela "nem sabia localizar no mapa". “Só me dei conta da distância depois do terceiro dia dirigindo sem parar. Chegando lá, ainda fui acolhida por uma família na montanha, numa cidadezinha de interior, onde vivi experiências únicas e até mesmo um romance", conta.
Aline Campbel e seu cão, Saga, em uma das caronas de caminhão (Foto: Aline Campbel/Arquivo pessoal)Aline Campbel e seu cão, Saga, em uma das caronas de caminhão (Foto: Aline Campbel/Arquivo pessoal)
Depois do tour pela Europa, Aline já rodou o Brasil de carona acompanhada por seu cachorro, Saga, e diz que planeja uma futura viagem a pé. “Estou sempre viajando. Gosto muito de pegar a estrada, conhecer pessoas e compartilhar momentos”, completa.

25 de mar de 2015

Estado Islâmico treina mais de 400 crianças para combater na Síria

Jihadistas chamam crianças de 'filhotes dos leões do Califado', diz ONG.
Crianças são usadas para conseguir informações em zonas não controladas.

Da AFP 
 
ESTADO ISLÂMICO
O que está por trás do grupo radical
O grupo jihadista Estado Islâmico (EI) treinou mais de 400 crianças para combater na Síria, informou nesta terça-feira (24) o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).
"Os jihadistas submetem as crianças, a quem chamam de 'filhotes dos leões do Califado", a intensivos treinamentos militares e religiosos nos territórios que controlam na Síria", diz a ONG com sede na Grã-Bretanha.
Vários vídeos difundidos nas redes sociais, em contas ligadas ao EI, mostram crianças carregando escopetas, disparando e rastejando no chão em treinamento de guerrilha.
Nas imagens, as crianças também são vistas estudando textos religiosos em torno de uma mesa redonda.
"Quando atingem a idade de 15 anos, esses meninos têm a opção de virar verdadeiros combatentes que recebem salário", indicou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman.
"O EI tenta atrair as crianças com dinheiro e armas", acrescentou, explicando que as crianças não são obrigadas a lutar, mas é o que acabam fazendo já que não vão à escola, nem trabalham.
Vídeo divulgado pelo Estado Islâmico mostra menino participando de execução de dois homens que seriam do serviço secreto russo (Foto: Reprodução/ LiveLeaks/ Legionnaire77)Vídeo divulgado em janeiro pelo Estado Islâmico mostra menino participando de execução de dois homens que seriam do serviço secreto russo (Foto: Reprodução/ LiveLeaks/ Legionnaire77)
As crianças soldados são utilizadas em postos de controle ou para conseguir informações nas zonas não controladas pelo EI, já que passam despercebidas.
Outras crianças são recrutadas, no entanto, com objetivos mais violentos. Um vídeo de março mostrava, por exemplo, um menino de 12 anos disparando várias vezes em um refém.
Segundo Rahman, o EI já utilizou dez crianças como terroristas suicidas na Síria. "Trata-se de uma lavagem cerebral", afirmou o diretor da OSDH.
"O chocante é que não escondem que usam crianças, ao contrário, se orgulham disso", denuncia, por sua vez, Nadim Hury, diretor adjunto para o Oriente Médio da Human Rights Watch.

24 de mar de 2015

Padre bêbado é preso no Pará por atropelar e matar um ciclista

24/03/2015 06h01                 

Ele ainda fugiu sem prestar socorro.
Quando foi parado, mal conseguia responder às perguntas da polícia.

Jalília Messias Belém,  
 
Um padre foi preso em Castanhal, no Pará, depois de atropelar um ciclista e fugir sem prestar socorro. Depois de ser parado em uma blitz, ele mal conseguia responder às perguntas da polícia e admitiu ter ingerido bebida alcoólica.
"Até 0.29 miligramas de álcool por litro de sangue é considerado só infração de trânsito, a partir de 0.30, além de infração é crime de trânsito. Ele estava com 1.0, bastante alto o teor de álcool encontrado no organismo do condutor", diz Marisol Mota, inspetora da Polícia Rodoviária Federal.
O padre George Miranda ia para São Miguel do Guamá, onde fica a igreja que administra. No caminho atropelou um ciclista no acostamento da BR-316 e fugiu sem prestar socorro.
A Polícia Rodoviária Federal foi acionada por testemunhas, fez uma blitz na rodovia e conseguiu prender o padre.
O ciclista José Ilton das Neves Conceição, de 52 anos, morreu no local.
O padre foi autuado por crime de trânsito porque dirigiu alcoolizado, mas também vai responder por desobediência e homicídio culposo, sem intenção de matar, pena que ainda vai ser agravada porque ele não socorreu a vítima.
Se for condenado, o padre pode pegar até oito anos e seis meses de cadeia.
Do G1 Belem

23 de mar de 2015

Confissões de um juiz

Magistrado que dirigiu Porsche de Eike e é investigado por lavagem de dinheiro diz não ter medo da prisão
Budista, Souza posa para foto em seu apartamento na Barra da Tijuca, no Rio

Naiana Oscar
O Estado de São Paulo

Aos 52 anos, Flávio Roberto de Souza está sozinho. A filha mais velha, de 25 anos, mora com ele, mas fica pouco em casa. Os outros três filhos pararam de visitá-lo. Às quintas-feiras, tem a companhia da faxineira, que vai uma vez por semana arrumar o apartamento de 100 m² na Barra da Tijuca. No condomínio, com imóveis avaliados em cerca de R$ 1 milhão, há um restaurante que entrega comida na porta. Peixe grelhado com salada verde é o pedido mais frequente. À noite, fica à caça de seriados gringos: Game of Thrones, Once Upon a Time, Girls. O mais novo vício é a série americana de suspense policial Grimm: assistiu a 45 episódios de uma vez só, depois que foi afastado do cargo de juiz titular da 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, no início de março, e do caso que lhe tirou do anonimato: o processo contra o ex-bilionário Eike Batista.

No último dia em que acordou para ter uma rotina normal de trabalho, o juiz dirigiu por 28 quilômetros até a sede do Tribunal de Justiça no Centro do Rio. O caminho, naquele 24 de fevereiro, era o de sempre, mas o carro não. Ele estava ao volante do Porsche Cayenne Turbo branco do empresário, apreendido duas semanas antes por determinação do próprio juiz. Na chegada, às 10h30, já era aguardado por jornalistas e fotógrafos, avisados pelos advogados de Eike de que o magistrado seguia para o trabalho no Porsche blindado. O carro estava estacionado no condomínio do juiz, assim como a Range Rover do filho do empresário. Os veículos tinham sido apreendidos numa operação da Polícia Federal para garantir o pagamento de indenizações caso Eike Batista fosse condenado por crimes contra o mercado financeiro e iriam a leilão na semana seguinte.

A imagem do magistrado ao volante do carro de R$ 860 mil era inusitada não apenas por ser o motorista o juiz de um dos processos de maior repercussão no País nos últimos tempos. Mas porque, em sua vida privada, ele adotava uma postura que em nada condizia com o que estava fazendo, segundo um desembargador colega de Souza. Budista tibetano, Flávio de Souza faz de dois a três retiros espirituais por ano, prega uma vida simples e tem planos de se tornar monge. Medita pela manhã e às seis da tarde diante de um altar com budas coloridos, incenso e orquídeas brancas, num canto da sala, que em nada é luxuosa – a estante de livros está bagunçada e há caixas de remédios espalhadas pela mesa.

De justiceiro, Souza passou a aproveitador para a opinião pública. O magistrado argumentou que havia pedido autorização do Detran para que os carros do empresário pudessem ser usados pela Justiça Federal. E disse que levou os veículos para a sua garagem “para não deixá-los sujeito a danos no pátio do tribunal, sob chuva, sol e poeira”. O piano de cauda que decorava a sala de Eike Batista estava no apartamento de um vizinho do juiz. A repercussão foi imediata. Dois dias depois, a corregedora nacional, ministra Nancy Andrighi, determinou que a o magistrado fosse afastado do caso e que uma sindicância fosse aberta para apurar os fatos. Na decisão, ela disse que “não há e nem pode haver” possibilidade de um juiz “manter em sua posse um patrimônio de particular”.

As declarações feitas pelos desembargadores a partir daquele momento deram ideia do clima que tomou conta do tribunal: “a situação é embaraçosa”, “sem cabimento”, “mancha a imagem do Poder Judiciário”, afirmaram alguns deles antes mesmo de virem à tona as suspeitas de que Souza teria cometido crimes de peculato, fraude processual, subtração de autos e lavagem de dinheiro. Dos R$ 116 mil apreendidos de Eike Batista, R$ 27 mil desapareceram. Outros R$ 600 mil recolhidos do traficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin, preso em 2013, sumiram. Segundo o Ministério Público Federal, o juiz confessou à corregedoria ter desviado US$ 150 mil e 108 mil dos cofres da 3ª Vara. Os procuradores chegaram a pedir a prisão preventiva do juiz – o que foi negado pela Justiça.

De uma hora para outra, Flávio Roberto de Souza passou a evitar a imprensa, que ele costumava atender prontamente desde que assumiu o caso do empresário, dando declarações que deixavam os próprios jornalistas surpresos. Ao Extra, ele chegou a dizer que ia “esmiuçar a alma de Eike. Pedaço por pedaço”. Em outras entrevistas, referiu-se ao empresário como “megalomaníaco”, por ter o sonho de se tornar o homem mais rico do mundo. A postura do magistrado fez os advogados do fundador do Grupo X se armarem. Desde o ano passado, eles vinham tentando tirar Souza do caso, com a alegação de que o juiz estava sendo parcial. Ameaçaram processá-lo, mas, diante dos últimos acontecimentos, voltaram atrás. “Até do cargo ele foi afastado. Isso já é uma punição”, diz o criminalista Ary Berger, que integra a defesa do empresário.

Na semana passada, o juiz quebrou o silêncio numa entrevista de quase duas horas, por telefone, em que só não quis comentar o sumiço do dinheiro. “Não posso falar sobre isso. Mas posso dizer que o caso está em segredo de Justiça e que o que se divulgou até agora não passa de especulação”. Ele deveria ter enviado sua defesa à Corregedoria até sexta-feira. O Tribunal diz que ela não foi entregue, mas o advogado do magistrado, Renato Tonini, garante que protocolou a defesa. Na próxima quinta-feira, o órgão decidirá se abre ou não um processo administrativo contra o juiz, cujas penas podem ir de advertência à demissão. Em paralelo, está em curso no MPF um inquérito que apura, entre outras coisas, a suspeita de lavagem de dinheiro.

Flávio Roberto de Souza não tem medo de ir preso. “Se isso acontecer, estou tranquilo. Já pus muita gente na cadeia. Se meu carma for esse, aceitarei tranquilamente”, disse o magistrado. “Não estarei perdendo minha liberdade, apenas terei mais espaço para repousar minha mente.” Ele defende, no entanto, que não há pressuposto legal para isso.

Sobre o Porsche, o piano, o bloqueio de bens, Souza não acha que tenha cometido qualquer equívoco. E, se pudesse voltar no tempo, mudaria apenas uma coisa: “faria tudo mais rápido”. Sua ideia inicial era concluir o processo e dar a sentença num prazo de três meses, mas, segundo ele, uma série de “atropelos” atrasaram a tramitação: como o fato de o Ministério Público de São Paulo também ter feito denúncias contra Eike e a audiência ter quer ser remarcada porque as testemunhas estavam impedidas de depor. No dia seguinte à entrevista, o juiz quis complementar sua resposta. “Eu voltaria atrás, sim. Pequei por excesso de zelo ao levar os carros para casa. Deveria tê-los deixado sujeitos a danos no pátio da Justiça”, afirmou. “Acho que me expus demais nesse processo e ele acabou virando um confronto pessoal.”

Trajetória

Esse não foi o primeiro confronto nem a primeira vez que Flávio Roberto de Souza se expôs. Em 2007, quando trabalhava como juiz titular de uma Vara Federal no interior do Espírito do Santo, em Colatina, o magistrado mandou prender o então secretário estadual de saúde, Anselmo Tose, porque o governo não havia fornecido, no prazo estabelecido, o medicamento para o tratamento de câncer de uma menina de cinco anos. O caso repercutiu na imprensa nacional. “Foi constrangedor. Fiquei oito horas detido”, lembra Tose, que só se deu conta de que se tratava do mesmo juiz de Eike Batista depois do episódio com o Porsche. “Tínhamos um bom diálogo com a Justiça e com o Ministério Público, por isso não entendemos a atitude arbitrária do juiz.” Souza se orgulha em dizer que foi o primeiro do País a prender um secretário de saúde e que, em poucas horas após a prisão, o medicamento foi entregue à família.

De Colatina, o juiz partiu para Cachoeiro do Itapemirim, onde diz ter vivido os piores anos de sua vida. Seus relatos sobre esse período têm um tom dramático e de revolta. Ele diz que começou a ser ameaçado depois de atuar numa investigação da Polícia Federal contra empresários do setor de granito na região. “Eu e minha família passamos a andar com segurança particular e minha casa virou um bunker.” Na mesma época, a filha mais nova caiu de um balanço e fraturou gravemente o rosto. “Comecei a beber, virei diabético, hipertenso e desenvolvi uma depressão crônica, além de ter comprometido meu fígado.”

Pessoas próximas ao juiz confirmaram que sua saúde é frágil. Ele está de licença médica desde que foi afastado do caso de Eike Batista pela corregedoria mas, segundo a assessoria de imprensa do tribunal, o laudo médico não indica qualquer comprometimento de sua saúde mental. O juiz diz que está tomando dez comprimidos controlados por dia e que, como forma de sair da depressão, tem se dedicado a compor. Ele já tem algumas músicas escritas, está trabalhando nos arranjos e faz planos de lançar um CD. “Só preciso de um produtor.”

Quando era universitário, dava aulas de música para ganhar um dinheiro. Tem violão, guitarra e um piano, que não é de cauda. Antes de estudar Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Souza cursou Comunicação Social, com habilitação em Cinema. Filho de uma dona de casa e de um marceneiro de Cruzeiro do Sul, no Acre, ele se mudou para a capital fluminense aos 17 anos para estudar. Seu sonho era ser jornalista, mas mudou de ideia. Morou com uma tia e depois com os pais até se casar com uma juíza federal, com quem teve três de seus quatro filhos. Eles estão divorciados há cinco anos.

Depois de ser formar em Direito, Flávio Roberto de Souza começou a advogar e chegou a ser procurador do Ministério Público Federal. “Trabalhei em casos relevantes, mas estava insatisfeito. A maioria dos juízes não respondiam ao esforço que colocávamos nas investigações.” Ele desistiu da carreira como procurador e em abril de 2001 tomou posse como juiz federal substituto.

O desembargador aposentado Paulo Barata participou da banca que o aprovou como magistrado e acompanhou a carreira de Souza até aqui. “Difícil saber o que aconteceu. Não havia nada na corregedoria contra ele antes desse fato. Nenhuma denúncia de atos ilícitos e duvidosos”, afirma. Uma fonte próxima ao juiz que preferiu não se identificar contou que ele vinha tratando o processo contra Eike Batista como “o grande caso” de sua vida. “Ele acabou fazendo as coisas de forma atabalhoada, sem respeitar formalidades.”

“Pra mim, era só mais um caso”, retruca o magistrado. Ainda assim ele gosta de frisar o ineditismo do processo que tinha nas mãos, e que agora está sendo conduzido por seu substituto. “Não havia jurisprudência, seria a primeira sentença de um crime difícil.”

Os acionistas minoritários que processam Eike Batista lamentam os desdobramentos e o atraso decorrente deles. “Mas melhor descobrir agora (os problemas envolvendo o juiz) que daqui a cinco anos”, avalia Márcio Lobo, advogado que representa acionistas minoritários da OGX. “Parece história de novela das oito.” De fato, o ex-juiz do caso acabou se mostrando um personagem tão novelesco quanto o protagonista Eike Batista. Agora, em casa, longe da toga, e de todos, ele aguarda por sua sentença.